O uso cada vez mais frequente de tablets, celulares e outros dispositivos digitais tem provocado mudanças significativas na rotina das crianças — e os impactos vão muito além do comportamento. Especialistas alertam que o excesso de tempo em frente às telas tem reduzido drasticamente as brincadeiras físicas, prejudicando o desenvolvimento motor, cognitivo e socioemocional na infância.
De acordo com Luciana Brites, psicopedagoga, psicomotricista, mestre e doutoranda em Distúrbios do Desenvolvimento, muitas crianças têm apresentado dificuldades motoras básicas, reflexo direto da diminuição de atividades corporais no dia a dia. “As habilidades motoras são construídas a partir do movimento. Quando a criança deixa de brincar, correr, pular ou explorar o próprio corpo, esse desenvolvimento fica comprometido”, explica.
A especialista destaca que a coordenação motora global é responsável pelo controle amplo dos movimentos corporais, envolvendo ações como correr, saltar, dançar, equilibrar-se e mudar de direção. Essas habilidades são fundamentais para a infância e influenciam diretamente tarefas cotidianas, como escrever, vestir-se, manter postura adequada, além da prática esportiva e da socialização.
O período mais indicado para estimular a coordenação motora global ocorre entre 0 e 6 anos, fase em que o cérebro e o corpo estão em intenso processo de desenvolvimento. “A primeira infância é um período crítico para o desenvolvimento motor, mas isso não significa que, após os seis anos, a criança não possa evoluir. A neuroplasticidade continua atuando ao longo da vida, permitindo ganhos mesmo em fases posteriores”, ressalta Luciana.
Atividades simples e presentes no cotidiano são grandes aliadas nesse processo. Brincadeiras como pular corda, desenhar, correr, dançar e jogar amarelinha estimulam tanto a coordenação motora grossa quanto a fina. Além disso, ao serem realizadas de forma lúdica, essas atividades também favorecem o desenvolvimento emocional, social e a coordenação olho-mão.
Outro ponto importante é que o estímulo motor não exige brinquedos caros ou estruturas complexas. Circuitos motores podem ser montados com objetos comuns, como almofadas, bambolês, cones ou até garrafas. “O mais importante é proporcionar experiências de movimento que desafiem a criança a planejar, executar e ajustar seus movimentos”, afirma a especialista.
Segundo Luciana Brites, trabalhar a coordenação motora global traz benefícios que vão além do corpo. Essas atividades contribuem para a melhora da atenção, memória, organização mental e funções executivas, como controle inibitório e planejamento. Como consequência, o impacto positivo se reflete diretamente na aprendizagem escolar e no aumento da autoestima infantil.
Diante desse cenário, a orientação para pais e educadores é clara: é fundamental inserir atividades motoras na rotina das crianças, reduzindo o tempo de exposição às telas. “Saltos, danças, brincadeiras livres e circuitos motores são ferramentas poderosas para o desenvolvimento integral. Promover o movimento é promover uma infância mais saudável, ativa e cheia de aprendizado”, conclui.

(*) Luciana Brites é CEO do Instituto NeuroSaber, psicopedagoga, psicomotricista, mestre e doutoranda em Distúrbios do Desenvolvimento pelo Mackenzie, palestrante e autora de livros sobre educação e transtornos de aprendizagem.
Instituto NeuroSaber – https://institutoneurosaber.com.br

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